5.09.2014

Tipo, eu

O menino calçando apenas um pé de sapato me ofereceu sua mão e assim, juntos, caminhamos pela Township. Ele não sabia inglês, não ia à escola. No final do dia, estava eu, com a roupa suja, a cara pintada, ingênua e emocionada pelos abraços e pelas mãos encontradas nas ruas empoeiradas. Era hora de ir embora e as duas pequenas pularam em mim pedindo que eu não fosse. Neste mesmo momento o menino me surpreendera novamente, desta vez suas mãos me pediam: "cash". Foi lá, naquele momento tão humano da minha vida que senti minha alma cair num buraco profundo - e que demora a sair. Não sabiam inglês, mas sabiam o significado da nossa visita, da realidade da fome e, sobretudo, da palavra 'cash'. Hoje, vejo na imagem do abraço o paradoxo de um gesto, ensinado ou de puro afeto infantil. Por mais que esteja ele, o amor, desvalorizado e em desuso, prefiro não acreditar que foram elas, as crianças, instruídas - por um segundo de abraço - a me amar. Porque ecoa naquela imagem: comer não é para todos. Comer não é para todos também ecoa em mim. Estamos todos famintos - de amor ou do que for. Essa coisa toda me lembrou García Lorca que via "la palabra amor desmoronada". Vejo outras coisas desmoronando também, Lorca, tipo eu.

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